Justiça decreta prisão preventiva do médium João de Deus

14/12/2018 - 15:31

A Justiça de Goiás decretou a prisão preventiva de João Teixeira de Faria, conhecido como João de Deus. Ele é acusado de abuso sexual por mulheres que buscaram atendimento na casa. Relatos reunidos até o momento indicam que, depois da sessão, o médium ofereceria para as supostas vítimas atendimento particular, momento em que os abusos seriam cometidos. Para o Ministério Público, a semelhança nos depoimentos reforça as suspeitas contra o médium. De segunda a quinta-feira, 13, 330 denúncias foram coletadas pelo Ministério Público de Goiás.

O pedido de prisão havia sido protocolada no fim da tarde de quarta, 12, no Fórum de Abadiânia, município onde o líder espiritual mantém o Casa Dom Inácio de Loyola, local em que faz os "atendimentos espirituais". O MP fundamentou o pedido de prisão preventiva com dois argumentos. Para o MP, em liberdade, João de Deus poderia coagir as testemunhas e, caso mantivesse os atendimentos, fazer novas vítimas.

Em audiência com o juiz que acompanha o caso, o advogado de defesa de João de Deus, Alberto Zacharias Toron, chamou o pedido de "descabido" na quinta-feira, 13, e solicitou que o médium permanecesse em liberdade. Sugeriu, ainda, que os atendimentos pudessem ser feitos de forma assistida, com a presença de policiais ou monitorado por câmeras.

Toron argumentou que João de Deus tem residência e já se mostrou disposto a colaborar com a Justiça. Na quarta-feira, 12, em um rápido aparecimento que fez na Casa Dom Inácio de Loyola, o líder espiritual disse ser inocente e que estava nas mãos da Justiça. "João de Deus está vivo", disse ele, para um público reduzido de fiéis.

Desde que as primeiras denúncias de abuso vieram à tona, o movimento na Casa Dom Inácio de Loyola caiu. Pelos cálculos de funcionários, na quinta-feira, o local recebeu cerca de um terço do número costumeiro de visitantes. A estimativa é de que o líder atraia mensalmente cerca de 10 mil pessoas, das quais 40% são estrangeiras.

As denúncias de abuso sexual surgiram na semana passada, quando o programa Conversa com Bial, da TV Globo, mostrou depoimento de mulheres que teriam sido vítimas de João de Deus. Depois da divulgação, começaram a surgir novos depoimentos.

A cidade aguarda dividida os desdobramentos. Com 17 mil habitantes, boa parte da economia do município gira em torno das atividades de João de Deus. O prefeito da cidade, José Aparecido Alves Diniz, calcula que a casa gera direta ou indiretamente 1.300 postos de trabalho.

"Não há como negar que vai ser um baque para o município", disse. Fiéis, por sua vez, estão divididos. Apegados à fé, muitos afirmam ser necessária a distinção entre o que faz o homem e a entidade. Outros não acreditam nas denúncias. "Mas é claro que as investigações têm de ser feitas. Não devemos julgar apressadamente nem contra ou a favor", disse a paulista Elizabeth Cozza. Mesmo diante das denúncias, ela decidiu vir para Abadiânia em busca de tratamento.

Em entrevista ao Estado, o coordenador do Centro de Apoio Operacional Criminal , Luciano Miranda Meireles, disse estar impressionado com o relato das vítimas e afirmou não ter dúvida de que, uma vez formalizadas as denúncias, o caso João de Deus tem potencial para superar o do ex-médico Roger Abdelmassih, condenado por abusar sexualmente de suas pacientes. Meireles ponderou que o número de casos é maior – pois não se restringe a uma pequena parcela de pacientes. “Fora o tempo. Há relatos de abusos cometidos há 20 anos.”

Nos casos de abusos sexuais, afirmou Meireles, as denúncias podem ser baseadas apenas nos relatos das vítimas. “Mas não queremos fazer isso de forma apressada. Daí a importância de ouvirmos um grande número de pessoas, para ver se as informações são conflitantes ou se elas se encaixam.”

Na tarde desta quarta, antes do pedido de prisão preventiva ser feito, a recomendação era reduzir a exposição de João de Deus. Era dada como certa, por exemplo, a participação do médium nas sessões realizadas nesta quinta e nesta sexta. Havia ainda a possibilidade de se declarar um recesso na casa na próxima semana. As atividades seriam retomadas apenas no próximo ano. “Era o tempo de se baixar a poeira”, resumiu Francisco Lobo.

Convidado para cuidar do caso, o consultor de crise Mário Rosa afirmou que, com as denúncias, João de Deus alterna momentos de angústia e tristeza com alguns momentos de calma. Rosa define o médium como uma pessoa rústica e pouco articulada. “Ele não funciona de acordo com a lógica da sociedade”, disse.

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“Meu pai é um monstro”

Em apenas três dias, desde que o programa Conversa com Bial e o jornal O Globo revelaram as denúncias de mulheres que teriam sido sexualmente assediadas por João Teixeira de Faria, o João de Deus, de 77 anos, deu-se uma avalanche terrena contra o médium mais celebrado do Brasil. O Ministério Público registrou o relato de mais de 300 vítimas, com roteiro parecido: elas foram abusadas dentro de uma sala da Casa de Dom Inácio de Loyola, o centro de atendimento de João de Deus na pequena cidade de Abadiânia, no interior de Goiás, local onde o guru diz curar os males de mais de 300 000 peregrinos anuais.

O algoz, prometendo oferecer “limpeza espiritual”, pedia que as presas tocassem em seu pênis, tocava-as, abordava-as pelas costas, e, de acordo com pelo menos uma acusação, teria cometido estupro com penetração. Dada a quantidade de queixas, criou-se uma força-­tarefa com cinco promotores e duas psicólogas para estimular as denúncias. “Recebemos relatos de moradoras de São Paulo, Goiás, Minas Gerais, Bahia, Paraná e Mato Grosso”, diz a promotora Patrícia Otoni, do Centro de Apoio Operacional dos Direitos Humanos de Goiás. Na quarta-feira 12, o MP pediu a prisão preventiva do cirurgião espírita.

Ao reaparecer em Abadiânia, depois do escândalo, João de Deus foi recebido por pessoas que continuavam a reverenciar seus poderes. Uma senhora gritou contra os jornalistas que acompanhavam a cena: “Vocês terão câncer e voltarão todos aqui para se curar”. Suado e nervoso, o acusado chegou a fazer uma rápida peroração em defesa própria. “Irmãos e minhas queridas irmãs, agradeço a Deus por estar aqui. Quero cumprir a lei brasileira. Estou nas mãos da Justiça”, disse. A depender da narrativa de Dalva Teixeira, filha de 49 anos de João de Deus, feita com exclusividade para VEJA, as dificuldades nos tribunais podem estar apenas começando. “Meu pai é um monstro”, afirma ela.

A VEJA, Dalva contou ter sido coagida, molestada e espancada pelo próprio pai. A violência começou quando ela tinha apenas 10 anos de idade. Num determinado dia, diz, João de Deus chegou em casa e pediu que a menina segurasse uma vela branca. Começava ali um ritual macabro. O médium mandou que ela fizesse uma marcação na vela para delimitar o tempo que duraria o “trabalho espiritual” que ele preparava para a filha.

“O pai vai ter de ficar com você até o fogo chegar nessa marca”, disse ele, segundo Dalva. Naquele momento, João de Deus a levou para dentro do quarto e se despiu. “(Ele) começou a passar o pênis no meu corpo todo. Eu falei: ‘Ai, tá me machucando’. E ele continuou em cima de mim.”

Foi o primeiro de uma série de abusos que se estenderiam por anos (os principais trechos da entrevista de Dalva aparecem no quadro abaixo). O relato é estarrecedor, com palavras simples, em português às vezes incorreto, mas revelações precisas. Os abusos foram se intensificando, cada vez mais violentos. Aconteciam em casa ou nos passeios a que os dois iam juntos. Aconteciam no carro, em quartos em residências de amigos. Prosseguiram durante quatro anos, até Dalva sair de casa, depois de uma cena de brutalidade.

Aos 14 anos, diz, ficou grávida de um funcionário de João de Deus. Viu no relacionamento uma chance de se livrar da agressividade paterna. Ao revelar a gravidez, o médium reagiu com violência. “Ele pisou na minha barriga. Ele dizia: ‘Eu vou te matar, eu vou te matar. Você está grávida’.” Por causa dessa surra, diz ela, perdeu o bebê, mas conseguiu se casar e sair de casa. No entanto, os estigmas a marcariam pelo resto da vida. “Descontei tudo na bebida, na droga”, afirma. “Entrei nessa por desespero, mágoa, sofrimento, porque o pai que conheci com quase 10 anos não foi um pai. Foi a minha destruição.”

Essas e outras acusações também foram relatadas por Dalva ao Ministério Público na última quarta-feira, 12, e fazem parte de um processo que corre há quatro meses em segredo de Justiça. Ela levanta algumas razões que a impediram de fazer a denúncia antes. Tinha medo de prejudicar os filhos, que até hoje são sustentados pelo avô. Além disso, “vários advogados” não quiseram pegar sua causa porque temiam enfrentar o médium. Por isso, intuiu, o melhor seria “deixar para lá”.

Em 2016, foi internada em uma clínica de reabilitação para dependentes químicos. Em 2017, os filhos dela, Paulo e João Paulo, ambos já maiores de idade, entraram com uma ação na Justiça contra João de Deus. Pediram uma indenização por danos morais pelo que a mãe sofreu, momento em que revelaram pela primeira vez os abusos do avô. Na ocasião, Dalva conta que foi procurada por João de Deus na clínica onde estava internada. O médium teria dito que, em virtude do processo, a vida dos netos estava em risco. A filha entendeu o aviso como uma ameaça. Relata que, fragilizada e assustada, concordou em estancar a acusação gravando um vídeo, no qual fazia uma declaração pública de que o médium era um bom pai e que nunca a agredira. Era a condição para que nada acontecesse com seus filhos. Em frente à câmera de um celular, ela então desmentiu as acusações de abuso sexual e, acariciando os cabelos do pai, disse que seus filhos decidiram acusar o avô por dinheiro. O vídeo, gravado há um ano e cinco meses, foi divulgado na terça-feira 11, na página do Instagram do líder espiritual. Era uma tentativa de se defender, pois, a essa altura, já circulava a suspeita de que ele abusara da própria filha.

A despeito de inúmeros relatos de cura e de conseguir despertar a fé na multidão de adoradores, o comportamento de João de Deus com Dalva não surpreende quem já conviveu de perto com ele. Nas palavras de uma amiga da família, que preferiu o anonimato porque teme represálias, “ele é um cavalo e um gentleman ao mesmo tempo; nunca sabemos ao certo o comportamento que terá”.

A sala usada para violentar mulheres, segundo as acusações, é o lugar onde ele sempre atendeu personalidades de todos os espectros: políticos (Dilma Rousseff, Paulo Skaf, Marconi Perillo), juristas (Luís Roberto Barroso), artistas internacionais (Oprah Winfrey, Naomi Campbell) e nacionais (Xuxa, Luciana Gimenez, Giovanna Antonelli, Claudia Raia, Marcos Mion, Fábio Assunção, Daniella Cicarelli). O médium já foi filiado ao extinto PFL. Famosas ou anônimas, ricas ou pobres, as pessoas o procuravam com reveses semelhantes: depressão, dificuldade em gerar um filho, vício em drogas e toda sorte de problemas de saúde, sobretudo câncer. João de Deus gosta de lembrar que, quando incorpora uma das trinta entidades que recebe, não sabe quem é quem, não vê a cor do dinheiro. Na prática, não é bem assim. Ao lado dele, na sala de orações, só se sentam celebridades ou pacientes muito ricos (ou as duas coisas).

Orgulha-se de não cobrar nada pelos serviços prestados, o que é verdade. Pessoas muito ricas costumam colaborar quando uma graça é atingida — algo costumeiro nas igrejas católica e evangélica e nos centros de umbanda. O empresário Abilio Diniz esteve em Abadiânia para pedir sua intercessão em prol de um amigo. Teria feito uma transferência de 300 000 reais (Abilio confirma a doação, mas diz ser um valor menor). A socialite Cata Pires e o empresário André Pires Oliveira Dias (herdeiro da Camargo Corrêa) creditam ao médium o fato de terem conseguido conceber um filho — e foram generosos em doações. José Seripieri Júnior, fundador da Qualicorp, e a mulher, Daniela Filomeno, também são devotos. O trânsito com os poderosos faz João de Deus viajar sempre para São Paulo, em avião comercial ou jatos particulares, para prestar serviços mediúnicos. Ex-­candidato ao governo de São Paulo, o empresário Paulo Skaf prepara churrascadas para o amigo, com a carne sempre muito bem passada.

Os negócios de João de Deus não se limitam às questões espirituais. Ele é dono de mais de vinte casas em Abadiânia, tem residência em Anápolis e apartamento em Goiânia. No passado, foi dono de duas fazendas de extração de esmeralda e ouro — jacta-se de uma vasta coleção de joias. Chegou a ser investigado pelo Serviço Nacional de Informação (SNI), no início dos anos 1980, por contrabando de autunita (veja o quadro abaixo). Dentro do centro espírita, mantém três comércios: uma lanchonete, uma livraria e uma loja de cristais. Um dos produtos de maior saída é a água abençoada por ele, ao preço de 3 reais a garrafinha de 500 mililitros. Há devotos que despacham malas e malas de água para suas cidades de origem. O lucro mais robusto fica com os cristais.

João Teixeira de Faria nasceu há 76 anos em Cachoeira da Fumaça, a atual Cachoeira de Goiás, filho de um alfaiate e uma dona de casa católicos. Ele conta ter tido sua primeira premonição ao prever que um temporal destruiria casas da região. A tragédia teria se consumado, e ele ganhou projeção local. Outras visões se deram até ter tido a ideia de usar seu dom para curar pessoas. Abriu a casa Dom Inácio de Loyola em 1976. Ele se diz um instrumento de Deus e, cauteloso, pede aos seus clientes que nunca interrompam os tratamentos com medicamentos e terapias convencionais.

A fama fora do Brasil foi alcançada em 1991, quando a atriz Shirley MacLaine se tratou em Abadiânia de um câncer na região abdominal. Em 2011, o ex-presidente Lula declarou fazer tratamento espiritual com João de Deus para tratar um câncer na laringe. No ano seguinte, 2012, a apresentadora americana Oprah Winfrey foi de avião particular até Abadiânia gravar uma entrevista com John of God. Pressionada pelas redes sociais, na semana passada ela tirou da internet a entrevista feita com o brasileiro.

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