Fazendeiro acusado de jogar mulher do 12º andar vai a júri 17 anos depois

29/01/2018 - 19:12
O agropecuarista e a sua vítima: caso ainda sem desfecho O agropecuarista e a sua vítima: caso ainda sem desfecho Foto: UOL

Paulo Sampaio, UOL

Acusado de esganar até a morte e jogar do 12º andar a professora Maria Estela Pacheco, o agorpecuarista Mauro Janene Costa vai a júri popular no próximo dia 22 de fevereiro. Estela tinha 35 anos quando foi encontrada morta no jardim do prédio onde Janene morava, em Londrina, a 390 km de Curitiba. Nesses 17 anos, a defesa do agropecuarista conseguiu adiar o julgamento seis vezes.

Esta semana, a advogada de Janene pediu a suspensão do júri do dia 22. Gabriela Roberta Silva alegou problemas de saúde — diz que atravessa um começo de gestação complicado. O juiz Luiz Carlos Fortes Bittencourt indeferiu o pedido, afirmando que “a legislação prevê alternativas para este tipo de situação, como o substabelecimento com ou sem reserva de poderes a outro defensor”. “Mesmo que se trate de uma situação supostamente grave e excepcional, não razoável adiar a sessão mais uma vez”, escreveu Bittencourt.

Procurada pelo blog, Silva não retornou a ligação. A advogada e jornalista Laila Pacheco Menechino, filha única de Estela, diz que apesar da recusa do juiz, “esse pedido preocupa”: “A defesa faz isso para cavar motivo de recurso. Como perderam o pedido em primeiro grau, eles têm direito a recorrer no segundo. Isso vai ser analisado no Tribunal de Justiça de Curitiba pelo mesmo desembargador que infelizmente sempre decide a favor da defesa (Clayton Camargo). De qualquer maneira, se eles conseguirem qualquer coisa no TJ, vão guardar para o dia do júri. Então, é sempre essa emoção”, diz Laila, que também está grávida.

No ano passado, a defesa já havia tentado adiar o júri pela sétima vez, com a alegação de que o movimento “Justiça para Estela”, criado por Laila, poderia influenciar negativamente os jurados; seus clamores nas redes sociais seriam um risco para o réu. Com base nisso, a advogada Silva pediu o “desaforamento” do processo, termo jurídico que designa a transferência do julgamento de um foro para outro, situado na mesma região, mas distante de onde o crime ocorreu. Com isso, a defesa ganharia tempo.

O requerimento, feito no começo de 2017, foi julgado em agosto por três desembargadores do Tribunal de Justiça do Paraná. Por dois votos a um, decidiu-se pela transferência do julgamento para Ponta Grossa, a quase 300 km de Londrina. O assistente de acusação, Marcos Ticianelli, acredita que houve um equívoco de interpretação por parte dos desembargadores favoráveis à transferência. “Os protestos nas redes sociais não são contra o réu, são a favor da Justiça”, disse na ocasião De família rica, Janene é neto de Abdelkarim Janene, considerado no passado um dos maiores pecuaristas do estado, e sobrinho de Jamil Janene, ex-presidente da Sociedade Rural do Paraná (SRP). O ex-deputado José Janene (PP-PR), apontado como pivô dos escândalos do mensalão e do petrolão, era seu primo. Em 17 anos, o agropecuarista ficou preso por apenas cinco dias. Seu julgamento foi adiado seis vezes – a tentativa de Ponta rossa foi a sétima.

A HISTÓRIA

Janene e Estela namoraram por um curto período, mas não tinham mais nada na madrugada do dia 14 de outubro de 2010, um sábado, quando foram vistos juntos no bar Valentino, um dos mais antigos de Londrina. Conhecido na época pela frequência de roqueiros e drogaditos, o Valentino saiu do underground e se tornou uma balada cult. Do bar, os dois foram para o apartamento onde o agropecuarista morava com a mãe, no edifício Diplomata, um dos mais

valorizados de Londrina. Não se sabe exatamente o que aconteceu entre o momento em que eles chegaram e a queda de Estela. O corpo dela foi encontrado por volta de 5h30 no jardim do prédio. De acordo com a versão de Janene, a professora ameaçou pular da sacada, e ele tentou segurá-la, mas não houve tempo. O agropecuarista negou que houvesse usado droga naquele dia, embora a polícia tenha encontrado cigarros de maconha no apartamento.

Estela foi enterrada sem que se fizesse o laudo da causa mortis, nem se abrisse um inquérito: “Trataram a morte de minha mãe como suicídio, até porque essa era uma fala do advogado de defesa”, diz Laila Menechino, 31, que é advogada e jornalista. Quando tudo aconteceu, Laila tinha apenas 14 anos e não estava em Londrina. Era a semana do “saco cheio” na escola, e ela passava alguns dias na casa de parentes em Adamantina, interior de São Paulo. “Minha tia me chamou e disse que precisávamos voltar para Londrina. Entendi na hora que alguma coisa ruim havia acontecido.

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